terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A solidão.

  "Minha força esta na solidão.Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas,pois eu também sou o escuro da noite."
Clarice lispector escreveu isso.
Lendo essas palavras,o mais impressionante,porém,não é a ideia de que minha força possa estar na solidão,e sim que eu tenha
me acostumado a procurar minha força em toda parte,exceto na solidão.
  Saia de casa.Vá á festa.Ao bar.Ver gente,dizem.Não sendo possível,existem entorpecentes ao alcance da mão:a televisão solidária,o correio eletrônico em que smiley faces de óculos escuros pesam o
mesmo que um parágrafo inteiro,140 toques para contar como chove ou como vai a dor de cabeça.Um novo toque novo no novo celular com uma nova mensagem de texto.Amizades light no site de relacionamento.
E a salidão,aquele monstro,fica ali no canto de  olhos meio vidrados,se esquecendo de rosnar,a baba imobilizada no canto da boca.
Mas e se minha força estiver na solidão e eu estiver,por pura tolice,confundindo heróis e vilões?
Afinal,eu também sou o escuro da noite.Eu também sou o que sobra em casa depois que todo mundo saiu e o que sobra da cidade depois que todo mundo foi dormir.Eu também sou isso,o silêncio que existe de
dentro para fora,como algo que se alastras,que transforma até o ruido externo em uma coisa sem sentido.Eu também sou eu apenas,eu só.E mais nada nem ninguém,mesmo na esquina mais movimentada da maior cidade do mundo
.Também sou o último passageiro do ônibus e a voz que ninguém ouviu.
E preciso grande humildade para coabitar comigo,para não ter medo nem chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas,e não camuflá-las com outoajuda.Mas só tenho como ser o claro do dia sendo,também, o escuro da noite.Do contrário a minha vida é rasa e os meus sentimentos,pequenas pérolas falsas.Dito de outro modo:Só tenho como acompanhar e me fazer acompanhar se descriminalizar em mim a solidão.

Por:Adriana Lisboa.
Revista:Gloss.


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